segunda-feira, 27 de junho de 2011

A Escola dos meus Sonhos

Olá Pessoal.

Escolhi o texto de Frei Betto para fazer uma comparação com a realidade vivida pelos professores atuais na maioria das escolas públicas brasileiras. A escola dos sonhos de Frei Betto não deixa de ser a minha como professor, que leciono numa escola onde se ensina as crianças - todas colocadas em fila no pátio às quartas-feiras -, o Hino Nacional, mas não se consegue ensinar valores morais, éticos... Daí, cria-se aquela visão medíocre de que aluno é bôbo, que não percebe as deficiências, mas eles percebem e se rebelam por falta de diretrizes e/ou, pelo puro prazer em dizer eu sou diferente disso aqui, eu tenho opiniões que essa pedagogia normativa, tradicional, não quer entender, quer apenas rotular de acordo com suas conveniências.
Na escola dos sonhos de Frei Betto, os alunos devem aprender o valor do trabalho trabalhando, até mesmo junto à enfermeiros, lixeiros, e assim adquirindo visões de mundo importantíssimas na formação de suas personalidades. Nas escolas públicas de São Paulo, em sua maioria, não se forma adultos com ética e moral, o sistema educacional, que parece mais preocupado com os meios do que com os fins, deforma o caráter dos futuros cidadãos, por se sentirem muitas vezes humilhados por meros diretores que se acham os senhores feudais do século XXI, pregando o Construtivismo e praticando o Positivismo do Hino Nacional com crianças e adolescentes sem Pátria. Um dia, eles aprenderão que esse Estado que são induzidos a dizer no Hino: Ó Pátria Amada, Idolatrada, Salve, Salve.....não se preocupa mais com a eduacação do que com a Economia, e a Economia não se adapta às necessidades sociais, e sim a sociedade que tem que se ajeitar às Crises Financeiras e suas consequências como Elevação de Taxas de juros, etc,etc,etc....Enfim, por toda essa realidade caótica que faz uma Amanda Gurgel virar celebridade por dizer a verdade em um tempo muito curto, deixo vocês com a Escola de "Nossos Sonhos", não apenas de Frei Betto.
Té mais.
- Uilson Carlos


Na escola dos meus sonhos, os alunos aprendem a cozinhar, costurar, consertar eletrodomésticos, a fazer pequenos reparos de eletricidade e de instalações hidráulicas, a conhecer mecânica de automóvel e de geladeira e algo de construção civil. Trabalham em horta, marcenaria e oficinas de escultura, desenho, pintura e música. Cantam no coro e tocam na orquestra. Uma semana ao ano integram-se, na cidade, ao trabalho de lixeiros, enfermeiras, carteiros, guardas de trânsito, policiais, repórteres, feirantes e cozinheiros profissionais. Assim aprendem como a cidade se articula por baixo, mergulhando em suas conexões que, à superfície, nos asseguram limpeza urbana, socorro de saúde, segurança, informação e alimentação.
Não há temas tabus. Todas as situações-limite da vida são tratadas com abertura e profundidade: dor, perda, falência, parto, morte, enfermidade, sexualidade e espiritualidade. Ali os alunos aprendem o texto dentro do contexto: a Matemática busca exemplos na corrupção dos precatórios e nos leilões das privatizações; o Português, na fala dos apresentadores de TV e nos textos de jornais; a Geografia, nos suplementos de turismo e nos conflitos internacionais; a Física, nas corridas de Fórmula-1 e nas pesquisas do supertelescópio Huble; a Química, na qualidade dos cosméticos e na culinária; a História, na violência de policiais contra cidadãos, para mostrar os
antecedentes na relação colonizadores - índios, senhores - escravos, Exército - Canudos, etc.
Na escola dos meus sonhos, a interdisciplinaridade permite que os professores de Biologia e de Educação Física se complementem; a multidisciplinaridade faz com que a História do livro seja estudada a partir da análise de textos bíblicos; a transdisciplinaridade introduz aulas de meditação e dança e associa a história da arte à história das ideologias e das expressões litúrgicas. Se a escola for laica, o ensino religioso é plural: o rabino fala do judaísmo, o pai-de-santo, do candomblé; o padre, do catolicismo; o médium, do espiritismo; o pastor, do protestantismo; o guru, do budismo, etc. Se for católica, há periódicos retiros espirituais e adequação do currículo ao calendário litúrgico da Igreja. Na escola dos meus sonhos, os professores são obrigados a fazer periódicos treinamentos e cursos de capacitação e só são admitidos se, além da competência, comungam os princípios fundamentais da proposta pedagógica e didática. Porque é uma escola com ideologia, visão de mundo e perfil definido do que sejam democracia e cidadania. Essa escola não forma consumidores, mas cidadãos.
Ela não briga com a TV, mas leva-a para a sala de aula: são exibidos vídeos de anúncios e programas e, em seguida, analisados criticamente. A publicidade do iogurte é debatida; o produto adquirido; sua química, analisada e comparada com a fórmula declarada pelo fabricante; as incompatibilidades denunciadas, bem como os fatores porventura nocivos à saúde. O programa de auditório de domingo é destrinchado: a proposta de vida subjacente, a visão de felicidade, a relação animador-platéia, os tabus e preconceitos reforçados, etc. Em suma, não se fecham os olhos à realidade, muda-se a ótica de encará-la. Há uma integração entre escola, família e sociedade. A Política, com P maiúsculo, é disciplina obrigatória. As eleições para o grêmio ou diretório estudantil são levadas a sério e, um mês por ano, setores não vitais da instituição são administrados pelos próprios alunos. Os políticos e candidatos são convidados para debates e seus discursos analisados e comparados às suas práticas.
Não há provas baseadas no prodígio da memória nem na sorte da múltipla escolha. Como fazia meu velho mestre Geraldo França de Lima, professor de História (hoje romancista e membro da Academia Brasileira de Letras), no dia da prova sobre a Independência do Brasil, os alunos traziam para a classe a bibliografia pertinente e, dadas as questões, consultavam os textos, aprendendo a pesquisar. Não há coincidência entre o calendário gregoriano e o curricular. João pode cursar a 5ª série em seis meses ou em seis anos, dependendo de sua disponibilidade, aptidão e seus recursos. É mais importante educar do que instruir; formar pessoas que profissionais; ensinar a mudar o mundo que ascender à elite. Dentro de uma concepção holística, ali a ecologia vai do meio ambiente aos cuidados com nossa unidade corpo-espírito e o enfoque curricular estabelece conexões com o noticiário da mídia.
Na escola dos meus sonhos, os professores são bem pagos e não precisam pular de colégio em colégio para se poderem manter. Pois é a escola de uma sociedade em que educação não é privilégio, mas direito universal, e o acesso a ela, dever obrigatório.

Frei Betto

2 comentários:

Anônimo disse...

Como sempre, Frei Betto me surpreende com a sua capacidade pedagógica-filosófica-política-espiritual.Evidenciando o paradoxo entre o simples e o complexo, o óbvio que insistimos em ignorar, através de sua crítica contundente porém lirico-poética sempre objetiva e pertinente, mas leve e prenhe de uma esperança que não tem um teor consolador, mas antes instigador.

Uilson disse...
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